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Água quente para matar a sede

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Água quente para matar a sede

A adoção da gentileza nunca foi um sacrifício para ninguém, nem nunca custou nada. Mas há gente que não se toca e permite que a avareza se manifeste em certos momentos, talvez até em consequência dos percalços do cotidiano, o que as outras pessoas não têm nada a ver com isso.

Levei como um fato pitoresco, o caso da falta de generosidade dessa Dona Maria da história, a quem dei até um nome de santa, embora ela estivesse mais para o “coisa ruim”, o “sete pele” da música de Cássia Eller, do que para o santuário.

Lá pelo começo da década de 70, eu e o publicitário e marqueteiro Phabiano Santos (era Fabiano, o Ph de pharmácia veio depois), éramos vizinhos do mesmo pedaço do bairro Doze Anos, com 12, 13 anos. Estudamos não sei quantos anos na mesma sala de aula no Jerônimo Rosado, o tradicional Colégio Estadual, junto com Fausto Guilherme, Cecília Monte, Elza Brito, Afrânio Leite, João Batista Bispo, Pereira, Ribamar Freitas, Xavier Neto, Marcondes Serafim, Joaninha Darc e outro punhado de gente boa.

A escola pública era legal, cumpria seu papel apesar de enfrentar os mesmos problemas que se repetem hoje. Era na época em que foi instalado o primeiro poço profundo em Mossoró, ali por trás do Teatro Dix-huit Rosado, antes um campinho de futebol “pavimentado” de raspa de serraria. A água jorrava pegando fogo para abastecer um montão de roladeiras, pipas em carroças e a presente lata d´água na cabeça. Era a tal água minerálica, termálica, como chegou a alardear o saudoso prefeito Dix-huit Rosado.

No meio de um ano, por conta das chuvas, o Colégio Estadual passou por ameaça de desabatamento em parte de suas estruturas físicas. E a providência foi a mudança das salas para o prédio onde já funcionava precariamente a faculdade de enfermagem. A educação física passou para um campinho por trás da cadeia velha, muito longe. Um longo trajeto para eu e Phabiano traçarmos a pé. Ainda bem que era à tarde, e no retorno, o mercado central, arrodeado de desordenadas barracas de madeiras, ainda conservava algumas abertas, principalmente as que vendiam lanches.

Numa dessas tardes, a gente foi para a física e o professor havia faltado. Ficamos jogando bola, fazendo a boa tabela. Phabiano no centro e eu na ponta direita, dupla que, por sinal, era muito elogiada. O sol das 13 horas era escaldante, como hoje e, já por volta das 3 da tarde, Phabiano lembrou que deveria passar na casa de jogo de seu pai, Teobaldo, de saudosa memória.

Saímos esbaforidos e tiramos quase a pique para o mercado, onde tomaríamos água antes de continuar a caminhada.

A mulher, dos seus 40 e poucos anos, meio gorda, de cara abusada, estava sentada por dentro da barraca com os cotovelos no balcão sem fazer nada.

– Dona Maria, me arranje um copo d´àgua.

Pedi meio tímido, com jeito de assustado e molhado de suor.

– Só tem água quente.

Cortou na hora, virando o rosto para outra direção.

Olhei para Phabiano e ele franziu o cenho, como caracterizam os bons romancistas, quando querem descrever alguém com cara de bobo surpreso, indeciso e meio desorientado.

_ Traga quente mesmo – implorei doido para saciar a sede certamente com a água que viria pelo menos morna.

A mulher me observou por cima dos ombros com um olhar fuzilador e entrou para o compartimento onde funcionava a cozinha.

Como ela estava demorando muito, Phabiano deu uma olhada de soslaio por cima de um compensado que separava o compartimento.

Não é que a bruxa estava esquentando a água numa panela de alumínio para levar pra gente.

Não me lembro nem se nós chegamos a beber.

SÁBADO DIA DE CONTOS

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Jornalista há 30 anos, tendo atuado nos jornais A República, Diário de Natal/O POTI, O Mossoroense, Revista Spaço, Revista De Fato Nordeste e fundador dos jornais Oeste Independente, Jornal de Mossoró, Jornal Metropolitano, em parceria com Roberto Costa Lima, jornal Página Certa, entre outras publicações; Foi Diretor de Redação do Jornal Gazeta do Oeste por mais de uma década. Escreveu os livros “Adffurn e seu tempo – vitórias e conquistas”, em parceria com o professor Lúcio Ney, e “Contos do Cotidiano”. No rádio, colaborou com as rádios Libertadora e Difusora. Atualmente é Diretor de Redação do Jornal News 360 e Apresentador do programa Jornal da Câmara, na TV Câmara/Mossoró.

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