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Circulando em Off

Era só uma foto

Eu e o fotógrafo Marquessoel formávamos uma parceria que deu certo em uma das duas oportunidades em que eu trabalhei no Diário de Natal. No time ainda, o jornalista enfezado, mas gente boa, Amâncio Honorato, os motoristas Olivá e Cizinho e Dona Iracilda, que fazia um delicioso cafezinho. Redação sem café é o “ó”, como se diz hoje.

Além de coordenar a sucursal na região de Mossoró, eu também produzia matérias especiais para O Poti. Vou até pedir licença para sair do contexto central desses rabiscos para registrar minha terna lembrança do jornal domingueiro que deixou sua marca entre as publicações dos Diários Associados. O Poti era leitura obrigatória.

Nesse tempo, Alfredo Lobo era o diretor de Redação, e um dia eu recebi uma pauta para girar a região partindo do Oeste e escrever uma ampla matéria de quatro páginas para O Poti do domingo seguinte com uma geral sobre os crônicos problemas causados pelos efeitos da estiagem prolongada.

O sertão ardia por conta do contínuo sol escaldante que, parecendo perturbado pelo efeito estufa, dizimava plantas e animais. Era comum saber notícias sobre gado morto apodrecendo na caatinga. E que a fome e a sede dominavam comunidades rurais empurrando o homem do campo para o êxodo rural. Era esse o cenário que iríamos cobrir.

Saímos cedinho, numa terça ou quarta, se bem recordo. Eu, Marquessoel e o motorista Olivá. Durante o percurso, vimos o quadro que a gente sabia que iria encontrar. Falei com dezenas de agricultores, sindicalistas, técnicos da Emater e com outras fontes que pudessem contribuir para a riqueza de detalhes do trabalho jornalístico. Enquanto isso, Marquessoel procurava captar a melhor imagem que pudesse casar com o texto que eu tinha em mente.

Em alguns municípios, chegamos a entrar literalmente no miolo das zonas rurais para testemunhar a miséria em elevado grau e tentar sensibilizar as autoridades a tomar as providências.

A certa altura poderíamos até voltar dali, pois já havia material suficiente. Mas na revisão do material, achei que talvez ainda precisássemos de uma foto, uma ilustração que fugisse do lugar comum de só mostrar um agricultor escorado em uma cerca de arame farpado reclamando da vida e dos políticos ou cavando a terra seca, zangado com Deus, mas ainda acalentando a esperança da mudança repentina do tempo anunciando as chuvas. Mas o céu nem lacrimejava.

Faltava a foto.

Já passava das duas da tarde quando resolvemos almoçar na Pousada do Anízio, em Pau dos Ferros. E antes mesmo de degustar a saborosa comida caseira, percebemos o ruído das sirenes da polícia. Uma, duas, três viaturas rasgavam o asfalto subindo o Alto Oeste.

— O que houve? Perguntei a alguém que entrava na pousada.

— Uma quadrilha que fez um assalto na Paraíba, trocou tiros com a polícia e matou um policial em Tenente Ananias.

Liguei rapidamente para a Redação em Natal e fomos fazer aquela matéria factual, que teria de enviar até o início da noite.

Enquanto seguíamos para Alexandria, onde alguns assaltantes estariam encurralados, aumentava o trânsito de viaturas e suas sirenes nas estradas. Era o reforço chegando.

E mesmo no meio daquela adrenalina, consegui vislumbrar, ao longe, um jumento que se aproximava pela margem da rodovia, conduzindo um menino com aparência de pouco mais de 2 anos, sendo puxado por outra criança, a pé, provavelmente um irmão do garoto menor, que deveria ter 6 ou 7 anos. O detalhe era que o animal trazia em um caçuá, uma lata d’água e, no outro, uma quartinha.

— Marquessoel, a foto é aquela.

Apontei me referindo à foto que eu precisava para a matéria sobre a seca.

Olivá freou cantando pneu, dada a pressa e a necessidade de parar subitamente. E Marquessoel saiu rápido do carro para tentar captar o melhor anglo. Ele caminhava ao encontro dos meninos apontando a máquina e estirando a lente como se estivesse mirando com uma arma. E antes mesmo do primeiro clique, o menino saltou do jegue e saiu se arranhando amparado pelo irmão, que também estava com cara de pavor. Se embrenharem no mato e lógico que o jumento ficou agitado e não teve outra alternativa senão desembestar.

Fiquei sem saber se ria ou se chorava. Saí do carro e corri por entre a mata seca até pegar o jumento assustado, que o amarrei ao galho de uma árvore, enquanto Marquessoel tentava, sem sucesso, chamar os meninos escondidos a poucos metros daquele local.

— Era só uma foto, meu filho, só uma foto.

SÁBADO É DIA DE CONTO

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Jornalista há 30 anos, tendo atuado nos jornais A República, Diário de Natal/O POTI, O Mossoroense, Revista Spaço, Revista De Fato Nordeste e fundador dos jornais Oeste Independente, Jornal de Mossoró, Jornal Metropolitano, em parceria com Roberto Costa Lima, jornal Página Certa, entre outras publicações; Foi Diretor de Redação do Jornal Gazeta do Oeste por mais de uma década. Escreveu os livros “Adffurn e seu tempo – vitórias e conquistas”, em parceria com o professor Lúcio Ney, e “Contos do Cotidiano”. No rádio, colaborou com as rádios Libertadora e Difusora. Atualmente é Diretor de Redação do Jornal News 360 e Apresentador do programa Jornal da Câmara, na TV Câmara/Mossoró.

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