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O comunista tupiniquim e o jornal censurado

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O comunista tupiniquim e o jornal censurado

Já no final da ditadura militar, pouco antes do processo de anistia política no governo Figueiredo, eu militava no movimento estudantil. Naquele tempo não havia essa ganância dos centros cívicos pelo controle das carteiras estudantis. As lutas eram efervescentes e aguerridas, muito mais observando a contribuição que os estudantes poderiam dar para efetivar as mudanças que a conjuntura acenava para o futuro do país.

A ditadura vinha perdendo sua legitimidade social e sofrendo desgaste político, embora sob ameaça de retrocesso devido à radicalização de setores das Forças Armadas que tentaram barrar o processo de redemocratização. Estávamos no ano de 1979.

A princípio, enveredei pela esquerda porque simplesmente achava bacana ser de esquerda. Depois foi que vieram as noções reais sobre o sonho que acalentava milhões de brasileiros na busca por melhores dias. Um click sobre o que seria o socialismo puro, antes mesmo das mudanças no Leste Europeu com a histórica queda do muro de Berlim.

Aquela briga que se travava contra o poder dominante era idealista e sentíamos que estávamos muito próximos de alcançar os primeiros passos para o objetivo de alternar o regime comando.

O presidente do Grêmio Estudantil do Centro de Educação Integrada Professor Eliseu Viana, a escola Ceipev, do Estado, era Almery Nogueira Júnior, que começara a coordenar o processo sucessório ao lado do seu vice, o Giovani “Paim”.

Almery lançou para presidente Francisco Nogueira. Um outro grupo que se formava pela oposição formatou uma chapa com Francisco dos Santos da Silva para presidente e me botaram na chapa como vice. No entanto, a chapa era desvinculada e por isso o vice tinha um lugar a mais no processo. Ainda surgiu uma terceira chapa, essa meio elitizada e até parecia que estava ali apenas para não ficar de fora do forjo eleitoral. Era encabeçada por uma mulher, Elysdeire Ferreira de Carvalho. Praticamente não fazia nem campanha.

O jogo começou com uma corrida civilizada onde os candidatos apresentavam suas propostas e faziam os contatos visitando alunos nos três turnos. Santos incluía uma luta a mais, que era o combate ao racismo. Ele não se sentia discriminado e procurava ampliar essa consciência.

Fomos vitoriosos com o estímulo de amigos como David de Medeiros Leite e  Chagas Silva, entre outros. No universo de cerca de 1.200 votantes, Santos obteve em torno de 600 votos e eu 738 votos, exatamente.

O mandato era de um ano e a gente tinha pressa para por em prática nossas propostas, entre as quais o lançamento de um jornal informativo.

A diretora Socorro Rego e a coordenadora do colégio Alessandra Delfino concordaram com o uso do mimeógrafo da escola para confeccionar o jornal. A intenção era de fazer um jornal convencional de colégio com informações internas. Fomos para a luta, mas precisávamos de orientação e procuramos Aécio Cândido e Crispiniano Neto, que eram estudantes de agronomia na Escola de Agricultura de Mossoró (ESAM), onde também residiam na já famosa casa 14. Eles também eram envolvidos em movimentos populares. Durante os contatos começamos a engolir corda, no bom sentido, de Crispiniano e Aécio e resolvemos publicar alguns artigos direcionados ao enfrentamento da ditadura militar.

Quando o primeiro número do jornal começou a circular, numa noite de quarta-feira, causou o maior rebu por conta dos artigos “subversivos”.

Ainda à noite a diretora nos chamou e pediu que o jornal fosse recolhido e destruído. E assim foi feito. Também só saiu esse número, embora a semente tenha sido plantada e a partir dali, conseguimos cada vez mais participação dos estudantes nas nossas lutas.

Bons tempos, apesar da repressão.

SÁBADO É DIA DE CONTO

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Jornalista há 30 anos, tendo atuado nos jornais A República, Diário de Natal/O POTI, O Mossoroense, Revista Spaço, Revista De Fato Nordeste e fundador dos jornais Oeste Independente, Jornal de Mossoró, Jornal Metropolitano, em parceria com Roberto Costa Lima, jornal Página Certa, entre outras publicações; Foi Diretor de Redação do Jornal Gazeta do Oeste por mais de uma década. Escreveu os livros “Adffurn e seu tempo – vitórias e conquistas”, em parceria com o professor Lúcio Ney, e “Contos do Cotidiano”. No rádio, colaborou com as rádios Libertadora e Difusora. Atualmente é Diretor de Redação do Jornal News 360 e Apresentador do programa Jornal da Câmara, na TV Câmara/Mossoró.

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