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Rua Frei Miguelinho, “capital do Doze Anos”, tudo mudou!

Direito e Cidadania

Rua Frei Miguelinho, “capital do Doze Anos”, tudo mudou!

Outro dia ao passar na rua onde nasci, minha Frei Miguelinho, bateu saudade do futebol no chão batido. Em uma breve análise logo percebi a mudança. A rua agora é asfaltada. Senti que também mudou radicalmente os costumes. Todos os finais de tarde, tinha Seu Amaro Cazumbá sentado na esquina da Princesa Isabel. Era nosso guardião. Mais à frente Dona Idinha, mãe de Marcelo, Seu Tião, Dona Francinete, seu Expedito e Dona Lourdes. Todos ali na calçada para vê o espetáculo da passagem das pessoas indo e vindo. Era boa tarde para lá e para cá.

Mais adiante, já escurecendo, tinha Seu Luiz e Dona Mana, de frente Tia Júlia e Dona Ana (minha mãe), logo em seguida Zélia, Ione, a mãe, somada as presenças de Zé Fontes e Salete. Cada uma em sua calçada, rindo e conversando. Antes ou depois do jantar, era a mesma rotina.

Não esqueço da lembrança de Dona Nilda no final da tarde esperando seu Anchieta chegar do banco, enquanto Leopoldo e Wilton jogavam bola na calçada. A única alteração era um bêbado aqui acolá quando as vezes caia da bicicleta ou tropeçava na sua própria embriaguez. E ainda mais na frente tinha a esquina de Seu Joaquim, sempre repleta de amigos, ali se discutia de tudo, sentavam os filósofos, como Seu João, o pai de ‘Souzinha’ professor, uns radicais, outros de esquerda.

Depois da esquina de seu Joaquim Aires, lá estava João de seu Né, escutando o menino Jorge e Dona ‘Nanquinha’, aquele garoto que mais tarde integrou a Marinha do Brasil. Era como seu João dizia: esse menino tem futuro.

E aí toda essa paisagem já envolvia dois quarteirões. E isso era diariamente, com pouca alteração.

Era assim onde eu nasci. Poucos tinham carros. No entanto, nenhum de nós deixou de ir ao hospital por causa disso. Pelo menos a minha ambulância era o carro de seu Anchieta ou o de Edmundo. Não entendia nada mas, cresci e ali descobri a primeira lição do conceito do que era solidariedade.

A volta diária dos jogos do SESI, resenhando e aguardando a hora do jantar para depois voltar e adentrar na madrugada, jogando conversa fora.

Não havia assaltos, quando muito, um ladrão de galinha que o delegado prendia sem algemas, levando para a cadeia, no outro dia era solto sob a promessa de nunca mais roubar. Não tinha processo. A sentença estava dada e a promessa era cumprida, porque a simples ameaça de voltar a prisão disciplinava.

Quando muito tinha a turma do galho verde comandada por Jaime e Gregório que ao voltar das festas arrancava os pés de plantas. Era assim a Frei Miguelinho. Foi naquele ambiente que cresci.

Tudo sem maldade. Ninguém era mais do que ninguém. Todos iguais. E lá na frente Seu Raimundo Valamira e Seu Nonato, Seu Juca do Bar, Evaristo, Seu Chico, pai de Vilanildo. Ali na outra rua, homens como os dois Geraldo: o Benevides e Bernardino. Bem ao lado Seu Arlindo e Seu Lucas.

Naquela época o assunto já era a liberdade para firmar a democracia. O governo era dos militares. Tínhamos liberdade e não sabíamos. Naquela época os pais que não tinham condições financeiras, como os meus, recebiam bolsas gratuitas do Governo Federal para estudar na escola particular. E eu assessorado por minha querida e amada tia/madrinha Inalda Cabral, mandei uma carta ao General, fui atendido e passei a estudar no Colégio Diocesano.

Mossoró tinha um verdadeiro e autêntico representante. Não entendia muito bem no inicio, mas depois de tanto ouvir falar, firmei o entendimento de que o nome do defensor de Mossoró e região era Vingt Rosado. Muitas histórias a seu respeito. Atendia do simples pedido ao mais complexo, atendia o rico e o pobre.

Tudo isso passou. O governo militar foi embora, não mais existem políticos da índole de Vingt Rosado. Tudo ficou capitalizado, o eleitor fiel se vendeu pelo vil metal. A rua Frei Miguelinho onde nasci perdeu a grande paisagem dos seus moradores. Com todo o respeito, tudo mudou, até o povo perdeu a vergonha. Fazer o que?

O que aconteceu com a rua de Túlio, Terlanio, Tibério e irmãos, de Marcelo Juruna e Marcelo professor, de Marcos Maia, Marcondes e Marcílio, de Lenilton, de Marcos Coquinho, de Marcondes de Mana, de Ribamar, de Edison goleiro, de Edson e Wilson Gurgel, de Deivinho e Jorge, de Altani, de Pedrinho e Alcimar, de Neneto, de  Edmilsinho, de João Bosco, de Jaime, de Calé e de seu irmão Gregório, de Carlinhos e de Itamar,  o maior goleiro que vi jogar, dos irmãos Mazinho e Raimundinho, de Ricardo Lopes, de Revetria e kilka, de Genilson, Geilson e Gilmar, de Ciro e George.

A  rua onde nasci não é mais a mesma. Está feia, apesar do asfalto, da iluminação e dos carrões estacionados. Ninguém senta mais na calçada. Todo mundo trancado. Não mais existem as palestras de Joaquim Aires, a serenidade da conversa e lições de seu Zuza, as histórias do meu querido tio Odílio, a rivalidade no futebol de seu Félix (meu pai) com João de Seu Né, a educação de seu Lula em atender no seu bar e ainda, ninguém pode sair na madrugada para ir treinar basquete e aguardar aquele que é um dos maiores seres humanos que conheço, o nosso querido e eterno PROFESSOR GILSON, aguardando-o na calçada de seu pai, Zé Henrique.

A festa de São João foi trocada pela sonoridade e rendoso evento da estação das artes. Ninguém vai mais a missa do domingo com Padre José do Vale. Não mais existe o Clube de Jovens. Tínhamos tudo isso. Foi ontem. Os nossos filhos nunca saberão o que era ser feliz. Mudou tudo. Estamos presos em nossas casas. Perdemos o norte. Ninguém respeita mais ninguém, se confunde liberdade com libertinagem, filho não respeita pai, os valores estão invertidos.

Mesmo assim, ainda estamos como naquele tempo, discutindo quem será melhor para o Brasil. Ora, mesmo que exista alguém para consertar a atual situação e mesmo que cada um ande com duas (2) metralhadoras, nunca voltaremos a ter a mesma paz vivida na minha rua. Nunca mais ela será a mesma. Os tempos são outros. É o preço que pagamos pela “evolução”. Mas não é crime ter saudades.

Não podemos fraquejar e a única forma é transmitir aos nossos filhos aqueles momentos, citando os ensinamentos dos seus personagens como exemplos para nossas vidas, buscando mostrar pelo menos na teoria o que era liberdade e respeito.

Por tal razão, não restou outro caminho, senão lembrar a minha rua, exemplo de um Brasil que não mais existe. Parece que foi ontem. Mas os resistentes ainda sobrevivem buscando a cada momento transmitir e anunciar as boas lições de um tempo passado como exemplo para o presente e futuro. É o nosso papel na atual conjuntura.

Aos meus amigos que viveram aquela realidade, somente posso dizer: tenho orgulho de ter nascido na Rua Frei Miguelinho, capital do bairro Doze Anos. E como dizia Itamar: é eleeeeee……

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Advogado, com inscrição na OAB/RN 3.225; Com formação acadêmica, iniciou no Educandário Nossa Senhora Aparecida, depois no Centro de Educação Integrada Professor Elizeu Viana (CEIPEV), encerrando o 2° grau no Colégio Diocesano Santa Luzia. Formado em Direito pela Fundação Universidade Regional do Rio Grande do Norte. Integrante da Comissão de Direitos Humanos e Prerrogativas da Subseção de Mossoró/RN no triênio 2013/2015. Exerceu a condição de Procurador de Vários Municípios e Câmaras Municipais no Rio Grande do Norte. Atualmente é sócio da banca “FÉLIX GOMES ADVOCACIA”, localizado na cidade de Mossoró/RN. Tem atividade forense em todas as áreas do direito, especialmente na área cível, eleitoral e na seara criminal é atuante na Tribuna do Júri.

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