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Amadorismo político dificulta ascensão de Tião Couto

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Amadorismo político dificulta ascensão de Tião Couto

Costumo dizer que uma coisa é você querer a política e outra é ela te querer. Ocorrem situações onde pessoas que não possuem nenhuma vocação para a política são atraídas por ela e conseguem ocupar os mais altos postos. Em oposição ao exemplo dos “sortudos” sem vocação, há idealistas que passam grande parte de suas vidas a espera do “cavalo selado” (aquela oportunidade para emplacarem com êxito seus projetos políticos) que para eles nunca vem. Devemos observar que também há situações onde o “cavalo selado” chega, mas, devido a ausência de habilidade mínima para montá-lo, uns se acidentam fatalmente durante o percurso.

Confesso que tenho tentado identificar onde se encaixa o empresário Tião Couto (PSDB) no contexto narrado acima. Nas eleições municipais do ano de 2016, sem ter disputado antes um mandato eletivo, Tião Couto entrou para a política e mirou a Prefeitura de Mossoró. O momento realmente parecia propício. O povo já estava bastante desacreditado dos políticos de carreira, Rosalba Ciarlini (PP) vinha de um considerável desgaste oriundo de sua passagem pelo Governo do Estado e o então prefeito Francisco José Júnior (PSD) realizava a pior gestão da história recente de Mossoró.

A campanha de Tião Couto passou a ser levada a sério pela população mossoroense logo no princípio da disputa. Rosalba liderava as pesquisas, mas de forma estagnada, enquanto Tião fazia uma escalada impressionante. No entanto, quando já aparecia em segundo colocado nas pesquisas, forçando a desistência de Francisco José Júnior, que disputava a reeleição, Tião viu sua campanha desmoronar após o vazamento de um áudio, no qual a então primeira-dama Amélia Ciarlini revelava para correligionários a existência de um “pacto” firmado entre Francisco e Tião.

A revelação, jogada pela mídia como uma “bomba” sobre a campanha de Tião, fez estagnar seu crescimento e alavancou a campanha da hoje prefeita Rosalba Ciarlini, que venceu as eleições e trouxe os tradicionais Rosados de volta ao poder, em Mossoró. Francisco desistiu e, mesmo restando outros candidatos na disputa (Gutemberg Dias pelo PCdoB e o Prof. Josué Moreira pelo PSDC), Tião Couto ficou em 2° colocado com mais de 50 mil votos, consolidando-se a principal liderança de oposição em Mossoró a partir daquele pleito.

Passada a eleição municipal o empresário Tião Couto reformulou seu projeto e mira agora o Governo do Estado, o qual pretende disputar nas eleições deste ano. Para isso enfrenta grandes dificuldades, que vão desde a ausência de garantias do PSDB (que lhe convenceu a entrar na política) a um “engessamento”, quando seu nome não tem aparecido em posições de destaque entre os demais pré-candidatos ao cargo que ele almeja.

Na verdade, no que diz respeito a legenda partidária, Tião Couto tem vivenciado situações de grande constrangimento, como por exemplo a visita recente do deputado estadual Ezequiel Ferreira,  presidente estadual do seu partido, à presidente da Câmara Municipal de Mossoró Izabel Montenegro (MDB) e a outras lideranças que fazem parte do governo Rosalba Ciarlini, do qual Tião é adversário ferrenho. Dentre outros episódios, tal visita, que aconteceu à revelia de Tião Couto e do seu grupo político em Mossoró, foi o que mais deixou clara a falta de compromisso do PSDB estadual para com o projeto de Tião.

Para um bom entendedor, o empresário Tião Couto está, indiretamente, sendo “convidado” a se retirar do PSDB e procurar outro rumo, caso realmente queira disputar o Governo do Estado nas eleições deste ano. Enquanto isso, Tião diz que, juntamente com seu grupo político, está conversando com diversos partidos para chegar a uma conclusão de qual decisão tomar. O tempo está passando e, no que diz respeito a viabilidade de êxito do projeto de Tião, se tornando mais um adversário.

Até  o momento o que para mim está claro é que, na política, Tião Couto não possui a mesma desenvoltura que demonstra em sua trajetória empresarial. Lhe falta o jogo de cintura que a política exige nos momentos de articulação. Se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha. É fato que o PSDB do Rio Grande do Norte, com seus 5 (cinco) deputados estaduais e 1 (um) federal, está distante de Tião. Como infelizmente a política brasileira é um toma lá, dá cá, certamente Tião não tem feito o seu “dever de casa”, ou seja, não tem falado a língua dos deputados Ezequiel Ferreira e Rogério Marinho, em especial, por serem as principais lideranças do PSDB no estado.

Com isso não digo que Tião deveria usar seu poderio econômico para, a qualquer custo, “convencer” as lideranças tucanas estaduais a abraçarem seu projeto. Ocorre que Tião precisa compreender que é querer demais que 6 (seis) deputados estaduais venham por livre e espontânea vontade lhe “pedir a benção”. Não há precipitação em dizermos que a cúpula tucana do Rio Grande do Norte espera que ele diga o que tem a oferecer.

Tião Couto pode dizer que na última eleição construiu um capital eleitoral de 50 mil votos em Mossoró e que exerce alguma influência política na região Oeste. No entanto, oferecer apoio ao projeto de reeleição de Rogério Marinho à Câmara Federal não é suficiente. Tião precisa compreender que é ingenuidade buscar o apoio dos deputados estaduais do PSDB potiguar levando a “tiracolo” Jorge do Rosário (PR) como pré-candidato a deputado estadual. Evidentemente esse não é o caminho a ser trilhado.

Como grande empresário que Tião Couto é, certamente, Ezequiel Ferreira, que preside a Assembleia Legislativa, espera que Tião convide-o para unirem suas estruturas políticas e econômicas visando algo como, por exemplo, uma das 2 (duas) vagas que estão abertas para o Senado Federal. Isso é evidente, afinal com Ezequiel disputando o Senado desafogaria um pouco a disputa dos tucanos para a Assembleia Legislativa. Mas nada de tentar impor candidatura de Jorge do Rosário.

Ao meu ver, caso Tião Couto não reveja seu comportamento em relação ao tucanato potiguar e opte pela saída do partido, que como dito acima até tem sido meio forçada pelos próprios tucanos, como forma de estes protegerem suas reeleições, dificilmente Tião conseguirá viabilizar uma chapa ao Governo do Estado com chances de êxito, a qual ele venha encabeçá-la. Em tais circunstâncias, seria mais viável compor como vice uma chapa que venha apresentar melhor viabilidade.

Recorrendo mais uma vez ao fato de que o eleitorado demonstra grande descrença em relação aos políticos de carreira, bem como considerando a total indefinição do cenário político potiguar para o pleito deste ano, acredito que uma chapa formada por nomes que unam a classe empresarial, e que também sejam capazes de atraírem apoios de lideranças que detenham capital eleitoral (deputados, prefeitos…), teria grande chance de lograr êxito na disputa pelo Governo do Estado.

Nesse contexto é possível enxergarmos dois nomes: Flávio Rocha e Tião Couto. Resta-nos sabermos se o megaempresário Flávio Rocha possui a mesma disposição que Tião Couto para a política, bem como tamanha capacidade de articulação, para daí enxergarmos um caminho o qual Tião poderia trilhá-lo para compor de fato uma chapa majoritária com viabilidade de êxito, permanecendo ou não no PSDB.

Nesse cenário de possibilidades e nenhuma concretude, sem que haja uma forte aliança de novas expressões políticas, especialmente advindas do setor empresarial, o pleito eleitoral deste ano ficará favorável ao tradicionalismo político potiguar, onde certamente levará vantagem a oligarquia dos Alves com o prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves (PDT), ou a massa popular vermelha que se forma em torno da senadora Fátima Bezerra (PT).

Com isso não estou ignorando opções interessantes como Clorisa Linhares (PSDC) e outras que venham surgir com a mesma expressão política, nem mesmo ignorando a remota possibilidade de o governador Robinson Faria (PSD) da a volta por cima, mas sim sendo realista ao analisar o cenário político que temos no momento, para as eleições que ocorrerão em outubro.

Fotos: Reprodução

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Profissional de mídias eletrônicas, do rádio e da comunicação impressa desde 2005.

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