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Uma análise do suicídio como reflexo de uma sociedade adoecida

Psicodialogando

Uma análise do suicídio como reflexo de uma sociedade adoecida

Creio que todo mundo já ouviu falar na campanha do Setembro Amarelo! Já foi amplamente divulgado que os índices de suicídio estão alarmantes, e ainda assim constatam um quantitativo subnotificado, já que não conseguimos entrar em contato de forma mais realista com este fenômeno, diante dos mitos e tabus que ainda nos sufocam.

Falar da morte é tabu! Falar de suicídio é tabu! Então vamos falar do que vem antes dele: tomando o fenômeno como um resultado final de um longo e doloroso processo de sofrimento e adoecimento psicológico, é necessário compreender tudo o que permeia esse tal processo, pois não é do dia pra noite que alguém acorda querendo dar cabo da própria vida!

Émile Durkheim (1858-1917) é a principal referência no estudo do suicídio. O autor adota o desinteresse pela vida como um fato social. Assim, não se pode compreendê-lo por meio da constituição orgânico-psíquica dos indivíduos, mas de acordo com a organização do meio social, ou seja, com a integração na vida coletiva, constatando que as formas de agir, de pensar e de sentir se generalizam, repetem-se entre membros de uma sociedade.

Ora, seria impossível analisar caso a caso um fenômeno que ocorre a cada 45 minutos no Brasil, e a cada 40 segundos no mundo. Seria insano buscar detalhes do que aconteceu com seu Fulano ou com a filha do seu Sicrano, sem compreender que esses índices refletem um adoecimento que é social! Sim, estamos imersos em uma sociedade adoecida, de modo que quando falamos em prevenção ao suicídio, refiro-me a você que está lendo esse texto, independente que já tenha vivenciado um comportamento suicida ou não, pois todos nós estamos sujeitos a sermos acometidos, em algum momento da vida, por algum sofrimento ou adoecimento de ordem emocional.

Mas, afinal, estamos adoecidos por quê, mesmo? Qual a sua hipótese? Em uma perspectiva histórica, temos uma violência urbana nunca vista anteriormente, o que nos fomenta um comportamento “naturalmente” ansioso ao andar na rua olhando para os lados, ao reagirmos diante de um estranho que se aproxima, ao ficarmos indiferentes diante de uma criança ou um idoso faminto, simplesmente por termos medo de tudo e de todos. Sobretudo quem já presenciou (ou presencia rotineiramente) cenas de assalto ou outros tipos de violência, este contexto contribui diretamente com o aumento dos índices de ansiedade e depressão, principalmente pelos transtornos de estresse pós-traumático e o isolamento daí decorrente.

Esta violência é reflexo de um desgoverno político e econômico que nos acompanha há décadas. Está cada vez mais recorrente ouvirmos o discurso que “o Brasil não tem jeito”, o que nos inspira um contagioso efeito dominó nos sentimentos de pessimismo e desesperança frente a um “futuro melhor”, onde a cereja do bolo são os números crescentes de desemprego, recaindo sobre os ombros de uma cultura machista, em que os homens sentem o peso de serem os “provedores” em uma sociedade que não nos provém direitos sociais básicos! Precisamos combater o machismo para rompermos o ciclo de silêncio da violência contra a mulher, precisamos combater o machismo para tirar dos homens o peso que têm que dar conta de tudo sempre! Está pesado, e são eles que mais se suicidam.

A crise econômica afeta a todos, principalmente a necessidade de termos 2 ou 3 vínculos de trabalho para correr em círculos tentando acompanhar uma inflação que sempre voa à nossa frente. O trabalho nos sufoca, o custo de vida só aumenta, e o tempo passou a ser nosso tesouro mais precioso! Ah, o tempo, sobra tempo pra viver em meio a esse caos social?! Ao final do dia, o pai e a mãe esbaforidos de trabalho, mergulham no ópio das redes sociais, não tem mais um pingo de paciência para as birras e danações infantis, e como uma atitude de socorro em meio ao cansaço do dia-a-dia, mergulham as crianças desde cedo no mundo virtual. O abuso dos aparatos tecnológicos tem trazido consequências imensuráveis de ordem cognitiva e social, prejudicando crianças, rodas de adolescentes, casamentos e outras interações da vida real. Falta segurança, falta educação, falta tempo de qualidade, falta energia, falta abraço, falta afeto, falta vida, faltam muitas vidas entre nós, pois as perdemos a cada 40 segundos para a gota d’água de todo esse processo social doentio.

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Psicóloga e mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atua como psicóloga clínica no Núcleo de Desenvolvimento Humano, em Mossoró - (CRP-RN: 17/3108). Formada pela Escola Experimental de Psicologia e Psicoterapia Fenomenológico-Existencial. Formada pela English School of Canada, em Toronto.

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