quinta-feira, agosto 5, 2021

Brasil terá terceira onda de Covid no inverno e 751 mil mortos até setembro se não acelerar vacinação, diz estudo

O Brasil registrou queda de 19% na média móvel de mortes por Covid-19 nas duas últimas semanas. Em 18 das 27 unidades de federação,...
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    Aglomerações, variantes mais infecciosas, gestão confusa: veja semelhanças entre os colapsos na pandemia na Índia e no Brasil

    Com recordes diários de infecções e mortes, o país do sul asiático ultrapassou o Brasil e se tornou o epicentro da pandemia de coronavírus no mundo. Entenda quais foram os fatores que levaram às altas nos números.

    A Índia vem registrando recordes diários de novas infecções e mortes por Covid-19 e já é considerada o epicentro da doença no mundo. O país, que há poucos meses se via “praticamente livre” da doença, tem enfrentado um colapso no sistema de saúde, com falta de oxigênio e cremações em massa.

    A situação atual no país asiático com mais de 1,3 bilhão de habitantes se assemelha à encarada pelo Brasil em março deste ano, quando o país mostrava sinais de colapso. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) chegou a dizer, na época, que era a maior crise sanitária e hospitalar da história brasileira.

    Na semana passada, a Índia ultrapassou o Brasil em número diário de mortes por complicações do coronavírus no mundo. A média atual da Índia está em 3,4 mil óbitos a cada 24 horas, segundo projeção da plataforma Our World In Data, ligada à Universidade de Oxford.

    Nesta segunda-feira (3), o país registrou mais 3,4 mil mortes e 368 mil casos, elevando o total de vítimas para 218,9 mil e o de infectados, para 19,9 milhões. Com isso, a Índia ultrapassou o México e se tornou o 3º país com mais mortes por Covid do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e Brasil.

    Ainda em março, quando o Brasil passava por sua pior fase na pandemia com a maior média diária de mortes por Covid-19 do mundo, o governo indiano declarou que por lá ela estava “em fase final”. Enquanto o Brasil começa a ver alguma redução na incidência de casos e mortes, a Índia quebra recordes diários.

    Raio-x: Índia e Brasil — Foto: Elcio Horiuchi/G1
    Raio-x: Índia e Brasil — Foto: Elcio Horiuchi/G1

    Os cenários da pandemia na Índia e no Brasil têm algumas características similares:

    1. Variantes mais infecciosas
    2. Gestão governamental confusa
    3. Eventos de alta transmissão
    4. Ritmo lento de vacinação

    Veja abaixo o detalhamento de cada uma delas:

    1. Variantes mais infecciosas

    Rajib Dasgupta, diretor do centro de medicina social da Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Delhi, disse em entrevista ao G1 acreditar que a segunda onda na Índia acontece “provavelmente, e de forma mais significativa” por conta das mutações, ou variantes, registradas no país.

    Suspeita de ser um dos motivos da segunda onda na Índia, a variante B.1.617 já foi detectada em pelo dezenas de países – mas a variação não explica sozinha o tamanho da crise na Índia, com um disparo no número de infecções registrado em abril.

    O epidemiologista brasileiro Paulo Lotufo acredita que a presença das variantes está “muito pouco” relacionada ao aumento no número de casos de Covid-19 tanto na Índia como no Brasil (por aqui, a variante P.1 foi identificada como mais transmissível), e mais à ausência de políticas eficientes de distanciamento social.

    “As variantes somente aparecem quando há descontrole social”, disse Lotufo.

    O professor Rajib Dasgupta comenta que um dos sinais de que a variante indiana tenha contribuído com a segunda onda na Índia é sua incidência em dois estados: Punjab e Maharashtra.

    “Esses dois estados representavam um terço dos casos até o final de março de 2021”, disse Dasgupta. “Isso tem como pano de fundo, é claro, a falta de níveis adequados de práticas e comportamentos preventivos.”

    Média diária de casos de Covid no Brasil e na Índia — Foto: Anderson Cattai/G1
    Média diária de casos de Covid no Brasil e na Índia — Foto: Anderson Cattai/G1

    Em 29 de dezembro de 2020, a Índia reportou seis casos da variante do Reino Unido (B.1.1.7) entre viajantes internacionais. A B.1.617 (duas mutações – E484Q e L452R) detectadas pela primeira vez em meados de fevereiro.

    As linhagens B1.1.7 e a B1.617 são atribuídas à contribuição com os surtos nos estados de Punjab e Maharashtra, respectivamente.

    No Brasil, a presença da variante P.1, identificada pela primeira vez em viajantes japoneses que estiveram em Manaus, é apontada como responsável pelo aumento no número de infecções na capital amazonense.

    Parentes lamentam a morte de paciente de Covid-19 do lado de fora de hospital em Ahmedabad, na Índia, em 27 de abril de 2021 — Foto: Ajit Solanki/AP
    Parentes lamentam a morte de paciente de Covid-19 do lado de fora de hospital em Ahmedabad, na Índia, em 27 de abril de 2021 — Foto: Ajit Solanki/AP

    A variante brasileira é apontada pelos cientistas como mais transmissível por conta de mutações na proteína S, que acopla o vírus às células humanas. As variantes sul-africana e britânica também foram identificadas no país e têm grande potencial de infecção.

    2. Gestão governamental confusa

    O presidente Jair Bolsonaro ao lado do primeiro-ministro Narendra Modi durante cerimônia de comemoração do Dia da República da Índia em foto de janeiro de 2020 — Foto: Alan Santos /PR
    O presidente Jair Bolsonaro ao lado do primeiro-ministro Narendra Modi durante cerimônia de comemoração do Dia da República da Índia em foto de janeiro de 2020 — Foto: Alan Santos /PR

    O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, pareceu lidar bem com uma primeira onda da pandemia, ainda em 2020. O país de 1,3 bilhão de habitantes conseguiu cumprir com a difícil tarefa de impor um lockdown nacional.

    Com o fechamento do comércio em grandes centros, houve um fluxo de pessoas para o interior, o que é apontado como uma das causas para a dispersão do vírus no país que tem sofrido diariamente com hospitais colapsados e cremações em massa.

    Em um momento de estabilidade no número de casos, ainda antes da nova onda que já leva milhares de vidas diariamente no país, Modi chegou sugerir a prática de ioga como forma de se criar um “escudo protetor de imunidade” contra o coronavírus.

    A sugestão não tem como base nenhuma evidência científica e pode inclusive piorar a situação da pandemia, uma vez que a prática de ioga é muitas vezes comunitária e o vírus da Covid-19 é transmitido pelo ar, entre as pessoas.

    Os comícios do Bharatiya Janata Party (BJP), partido do primeiro-ministro indiano, continuam a ocorrer e a levar multidões às ruas mesmo com os recordes diários de casos e mortes.

    A posição do líder indiano sobre a pandemia sofreu algumas mudanças e, no início do ano, Modi apostou em uma política baseada na distribuição de vacinas – tanto dentro do seu território, como enviando para países aliados.

    “A Índia foi bem-sucedida em salvar tantas vidas, nós salvamos a humanidade toda de uma grande tragédia”, disse Modi em janeiro, durante o Fórum de Davos. Três meses depois, o país registrava mais de 2 mil mortes diárias.

    A Índia conta com um dos maiores centros de produção de vacinas no mundo, onde é fabricada parte das vacinas usadas inclusive no Brasil.

    A disparada de casos e mortes ocorreu após o ministro da Saúde indiano, Harsh Vardhan, ter falado em “fase final da pandemia” em março e ter flexibilizado as medidas de combate à pandemia, liberando comícios eleitorais e festivais religiosos.

    Ele disse ainda que o governo de Narendra Modi era um “exemplo para o mundo na cooperação internacional”.

    Em comparação, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, que chegou a comparar a Covid com uma “gripezinha” no primeiro semestre de 2020, recusou onze ofertas formais de fornecimento de vacinas contra a Covid-19.

    Assim como o chefe da saúde da Índia, Bolsonaro também disse que a pandemia estava acabando no Brasil semanas antes do surto que atingiu Manaus e levou o sistema de saúde a um colapso com a falta de oxigênio.

    “Me permite falar um pouco do governo, que ainda estamos vivendo o finalzinho de pandemia. O nosso governo, levando-se em conta outros países do mundo, foi aquele que melhor se saiu, ou um dos que melhores se saíram na pandemia”, disse Bolsonaro em dezembro de 2020.

    Bolsonaro chegou a suspender a compra das vacinas desenvolvidas pelo Instituto Butantan (SP) em parceria com a chinesa Sinovac e até disse, em uma rede social, que a vacina causaria morte e invalidez. O presidente brasileiro também promoveu aglomerações e se coloca publicamente contrário ao lockdown.

    Bolsonaro ainda entrou em choque com governos estaduais por ser contrário a medidas de restrição, além de ter tido quatro ministros da Saúde desde o começo da crise da Covid-19.

    3. Eventos de alta transmissão

    O governo indiano atribui a explosão de casos e mortes ao não uso de máscaras pela população e ao desrespeito ao distanciamento social – e o próprio governo, que em um primeiro momento defendeu um lockdown nacional, agora se recusa a aplicá-lo novamente, tentando responsabilizar as autoridades estaduais pela situação fora de controle.

    “Reuniões de quaisquer tipos podem contribuir com o aumento da transmissão. No entanto, as recentes grandes aglomerações – religiosa e política – acompanharam o surgimento das formas mutantes”, disse Dasgupta, de Nova Delhi.

    No início de abril, um festival hindu promoveu aglomeração nas margens do rio Ganges (veja no vídeo acima). No Brasil, segundo explica Lotufo, o aumento no número de infecções esteve relacionado não somente às festas irregulares, aglomerações em bares, restaurantes e em celebrações religiosas, mas também com feriados importantes, como o Natal.

    4. Ritmo de vacinação no Brasil e na Índia

    Média de vacinas contra a Covid aplicadas por dia no Brasil e na Índia — Foto: Anderson Cattai/G1
    Média de vacinas contra a Covid aplicadas por dia no Brasil e na Índia — Foto: Anderson Cattai/G1

    Brasil e Índia avançam lentamente com seus programas de vacinação, atingindo pouco mais de um décimo de toda a população até o momento. Os dois inclusive dividem um dos mesmos imunizantes: tanto aqui como lá, a vacina da AstraZeneca integra a campanha nacional de vacinação.

    O professor Rajib Dasgupta reforçou que a vacinação é eficaz – mas disse que é preciso que boa parte da população receba as duas doses e que uma pequena parcela dos indianos foi vacinado com ao menos a primeira dose da vacina.https://9cba3023a9ca2874f3e1c27e29327b2d.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

    “A vacinação é eficaz, como nós sabemos, duas semanas após a segunda dose e para um nível razoável de três semanas após a primeira dose”, disse Dasgupta. “A vacinação ajuda a aumentar a imunidade em nível populacional, o desafio imediato é ser capaz de oferecer cuidados clínicos, principalmente nas UTIs.”

    O governo indiano começou sua campanha de vacinação contra a Covid-19 em 16 de janeiro, um dia antes da primeira dose ser aplicada no Brasil. O país faz uso de dois imunizantes, ambos produzidos localmente: Covaxin e Oxford/AstraZeneca – a mesma do Brasil, que também usa a Coronavac.

    Até o dia 29 de abril, mais de 163 milhões de indianos receberam ao menos uma dose da vacina – o número equivale a cerca de 8% da sua população total. Mesmo começando antes e tendo a produção local de vacinas, a Índia tem vacinado sua população muito lentamente.

    Centro de vacinação em Mumbai, Índia, em 28 de abril de 2021 — Foto: Niharika Kulkarni/Reuters
    Centro de vacinação em Mumbai, Índia, em 28 de abril de 2021 — Foto: Niharika Kulkarni/Reuters

    O epidemiologista brasileiro Paulo Lotufo concorda com o especialista indiano. Segundo ele, a vacinação ainda não desacelerou o ritmo de transmissão porque a cobertura “ainda é baixíssima” nos dois países.

    Até o dia 29 de abril, o Brasil havia aplicado ao menos uma dose da vacina contra a Covid-19 em 31,2 milhões de pessoas. O número cobre cerca de 14% da população.

    G1

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