quinta-feira, agosto 5, 2021

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    Por que ser ‘podre de rico’ na China deixou de ser bem visto

    Muita gente tem ficado indignada com as rendas altíssimas de algumas pessoas na China em meio a uma enorme desigualdade de riqueza.

    Quanto é necessário para cobrir as refeições de um dia? 650 yuans (R$ 520) são suficientes? Não de acordo com Su Mang, ex-editora-chefe da revista Harper’s Bazaar China, cujos comentários sobre o assunto durante um reality show enfureceram as redes sociais chinesas.

    “Temos que comer melhor, não posso comer com um padrão tão baixo”, acrescentou ela no programa em que 15 celebridades estão morando juntas. Chocados com seus comentários, os usuários apontaram que gastam menos de R$ 24 por dia com suas refeições.

    Embora Su, conhecida como “O Diabo da China Veste Prada”, tenha dito que foi tudo um “mal-entendido” — os 650 yuans foram o valor de seu cachê no programa de que participou — o público não ficou convencido. “Ela pode tentar explicar, mas a verdade é que as celebridades são elitistas sem perceber”, escreveu uma pessoa no Weibo, mais famoso serviço de microblogging da China.

    O caso dela é apenas o mais recente em que o público se revolta com uma personalidade por causa de sua riqueza.

    No início deste ano, Annabel Yao, a filha mais nova do fundador da gigante de eletrônicos Huawei, Ren Zhengfei, enfureceu a internet quando disse que batalhou para chegar aonde está. “Nunca me tratei como uma chamada ‘princesa’ … Acho que sou como a maioria das pessoas da minha idade, tive que trabalhar muito, estudar muito, antes de poder entrar em uma boa escola”, disse ela em um documentário de 17 minutos anunciando sua carreira como cantora.

    Compartilhando o filme em sua conta no Weibo, a jovem de 23 anos, cujo pai tem uma fortuna estimada em US$ 1,4 bilhão (R$ 7,2 bilhões), disse que assinar um contrato com uma empresa de entretenimento foi um “presente especial de aniversário” que ela deu a si mesma.

    Su Mang é ex-editora da revista sofisticada Harper's Bazaar China — Foto: Getty Images via BBC
    Su Mang é ex-editora da revista sofisticada Harper’s Bazaar China — Foto: Getty Images via BBC

    ‘Não merecem’

    Por anos, os ricos e famosos da China são conhecidos pela ostentação, exibindo seus carros e bolsas de luxo online — muitas vezes para a inveja de seus seguidores. Mas, cada vez mais, qualquer tipo de exibição de riqueza, intencional ou não, está sendo recebida com hostilidade e desdém.

    Pessoas como Su e Yao estão sendo criticadas porque muitos acreditam que as celebridades, assim como os chamados fuerdai – os herdeiros dos novos ricos da China – simplesmente não merecem suas rendas altíssimas.

    “Comparado com as estrelas e seus empregos aparentemente ‘fáceis’, as pessoas veem o quanto trabalham e ganham pouco”, diz Jian Xu, da Universidade Deakin, que pesquisa a cultura da mídia chinesa.

    Haiqing Yu, professor de estudos de mídia da Universidade RMIT de Melbourne, na Austrália, acrescenta que “os comentários de Su Mang irritaram as pessoas porque estão revelando algo que a China tenta esconder” — que algumas pessoas têm demais, enquanto outras sobrevivem com muito pouco.

    A diferença de riqueza na China é gritante. Embora a renda média anual do país seja de 32.189 yuans (R$ 25,8 mil), ou cerca de 2.682 yuans por mês, de acordo com dados oficiais, Pequim também se tornou o lar de mais bilionários do que qualquer outra cidade do mundo.

    A atriz Zheng Shuang foi criticada por seu alto salário — Foto: Getty Images via BBC
    A atriz Zheng Shuang foi criticada por seu alto salário — Foto: Getty Images via BBC

    O fato de os ricos exibirem abertamente seus bens é, portanto, imediatamente mal visto. Embora isso seja comum para a maioria das nações com um problema de desigualdade de renda, a China está em uma posição ainda mais curiosa, dizem os especialistas.

    Por muito tempo, as pessoas tiveram a impressão de que poderiam alcançar “prosperidade comum” — algo que o ex-líder supremo Deng Xiaoping disse ser o objetivo, mesmo que isso significasse que certas pessoas e regiões se tornassem ricas primeiro.

    Às vezes, a raiva é exacerbada por causa do que Xu chama de “expectativa de que as celebridades contribuam mais (para a sociedade), visto que são publicamente conhecidas e têm um poder simbólico”.

    No mês passado, por exemplo, houve indignação quando foi revelado que a atriz Zheng Shuang recebia cerca de 2 milhões de yuans por dia (R$ 1,6 milhão) por um papel na TV, totalizando 160 milhões de yuans (R$ 128 milhões) para todo o projeto.

    “Funcionários comuns que ganham 6 mil yuans (R$ 4,8 mil) por mês precisariam trabalhar continuamente por 2.222 anos, provavelmente desde a dinastia Qin, para ganhar isso”, escreveu uma pessoa no Weibo.

    Mas o público ficou ainda mais chateado porque Zheng já estava imersa em polêmica. No início deste ano, ela se envolveu em uma discussão sobre barriga de aluguel — que é ilegal na China — quando ela foi acusada de abandonar dois filhos nascidos de mães de aluguel no exterior.

    É, portanto, altamente problemático alguém ganhar tanto dinheiro quando não é considerado um bom exemplo. É também por isso que, em 2018, houve pouca simpatia pela atriz Fan Bingbing quando esta foi mantida em prisão domiciliar por sonegação de impostos, embora fosse uma das estrelas mais populares do país.

    A arte do humilde fanfarrão

    O desprezo pela ostentação também tem um componente cultural, dizem os especialistas. À medida que a classe média da China cresceu, os cidadãos urbanos mais instruídos interpretaram a ostentação de riqueza “como falta de sofisticação ou mesmo como origem na ‘classe baixa'”, diz John Osburg, autor de Anxious Wealth: Money and Morality Entre China’s New Rich (Riqueza ansiosa: dinheiro e moralidade entre os novos ricos da China).

    A China ultrapassou o Japão como o principal mercado de luxo pessoal da Ásia-Pacífico — Foto: Getty Images via BBC
    A China ultrapassou o Japão como o principal mercado de luxo pessoal da Ásia-Pacífico — Foto: Getty Images via BBC

    “É um esforço árduo”, disse ele, acrescentando que fazer isso também é um sinal de “insegurança” quanto à posição social de alguém.

    Ainda assim, o apetite do país por luxo não vai desaparecer tão cedo.

    De acordo com a empresa de pesquisa de mercado Euromonitor International, a China ultrapassou o Japão como o principal mercado de luxo pessoal na Ásia-Pacífico e espera-se que o crescimento das vendas volte aos níveis pré-pandêmicos até o final do ano.

    A chave, então, é que os ricos sejam capazes de demonstrar seu sucesso, mas de uma maneira mais discreta.

    Yu observa como, para alguns, isso gerou um movimento de “ostentação humilde”. “Alguns dos ricos agora tentam se exibir de forma velada, em vez de apenas mostrar fotos de bens materiais”, disse ela.

    Por exemplo, a influenciadora MengQiqi77 — conhecida por compartilhar atualizações regulares de seu estilo de vida luxuoso — uma vez “reclamou” no Weibo que não havia estações de carregamento de carros elétricos suficientes em seu bairro.

    “Portanto, não tivemos escolha a não ser nos mudar para uma casa maior com garagem privada para o Tesla do meu marido”, escreveu ela.

    Em outra ocasião, ela comentou que seu marido era “muito econômico” para escolher usar um terno de cashmere Zegna que custava “apenas 30 mil yuans (R$ 24 mil)”.

    Claro, não demorou muito para que essas postagens também gerassem críticas e piadas por parte dos internautas.

    Parece que não há solução fácil para os ricos e famosos da China.

    G1

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